A saúde privada à beira do abismo

Fernando do Espirito Santo Soares – Médico (fer.esp.santo@hotmail.com)

Os serviços de saúde privados caminham para uma batalha inevitável pela própria existência. Por um lado, os custos de manutenção tendem a elevar-se continuamente (impostos, aluguéis, salário de funcionários, encargos sociais, materiais, insumos, combustíveis, entre outros). Do outro lado, temos valores irrisórios pagos pelas operadoras de planos de saúde em todo o país – em geral oscilantes entre R$ 20 e R$ 48 por consulta, ou metade disso quando o paciente retorna antes de 30 dias. Ou seja, cada consulta sai por valores de R$ 10 a R$ 24.

Lutando para fechar a conta, a classe médica é sempre apontada como vilã. Recentemente, os médicos suspenderam por 24 horas a aceitação de convênios em prol de melhor e mais digna remuneração. O fato foi recebido com indignação pela sociedade. Entretanto, é bom que se diga, em momento algum a população ficou desamparada. Não só os serviços se mantiveram operantes, mas também o SUS funcionou regularmente.

A valorização do profissional médico é urgente, pois é ele quem cuida do bem mais valioso da humanidade, a vida. Sem ela, não há nem mesmo que se falar em quaisquer outros direitos individuais ou dilemas da civilização. Mais importante que isso, façamos uma conta simples. É justo o preço já citado de um parecer por um profissional que, até atingir o grau de especialista, passa por tão longo e abnegado processo? Desde ser aprovado no vestibular mais concorrido, a encarar o curso superior de maior duração (seis anos, em média) e com a maior carga horária semanal (entre 32 e 60 horas), ele precisa se submeter a novos concursos — as prova de residência – para, aprovado, iniciar a residência médica, em que passa por treinamento durante at&ea cute; cinco anos, com carga semanal de até 60 horas pela legislação, mas que, na prática, chega a 120 horas.

Em geral, um especialista completa duas ou três residências intercaladas por esses processos seletivos, resultando num prazo de dois a sete anos até a especialização. Ao fim da longa etapa envolvendo formação de nível superior e pós-graduação, um médico estará pronto para assumir as funções. É a esse profissional que os planos de saúde querem pagar R$ 10 por consulta.

Não só. Temos também a interferência absurda promovida pelas operadoras de planos de saúde nas condutas médicas, seja por quererem limitar a ação do médico, seja por exigirem laudos e relatórios agredindo o sigilo profissional. Somando-se a isso, também buscam limitar as liberações de procedimentos por sessões semanais, fazendo os usuários terem de ir aos consultórios várias vezes quando poderiam ir apenas uma vez.

Não bastasse pagarem mal e burocratizarem o atendimento, os planos de saúde atrasam o pagamento aos médicos. Há mesmo os que se consideram em dia com os profissionais se os pagarem três meses depois da consulta. O que aconteceria se os consumidores pagassem as contas apenas três meses depois da compra? O que acontece com o usuário se deixar de pagar aos convênios durante três meses?

É óbvio que, diante dessas circunstâncias, a classe médica tenta manter o equilíbrio programando uma quantidade elevada de pacientes por dia. Em geral, isso resulta no elevado tempo de espera dos pacientes nas clínicas privadas. Para “corrigir”, o governo propõe limitar o tempo de espera dos pacientes nas clínicas — medida incabível e incoerente, uma vez que o tempo de consulta é variável relacionada ao problema de cada indivíduo, podendo variar de alguns minutos a mais de hora, conforme o caso.

Com o estabelecimento de limites de tempo de espera, apenas os pacientes serão prejudicados. A qualidade do atendimento cairá ainda mais ou restará aos profissionais duas opções: suspender o atendimento a todos os planos de saúde ou simplesmente fechar consultórios e clínicas particulares pela completa inviabilidade econômica.

É preciso dizer ainda que, atualmente, a relação entre médicos e pacientes é normatizada pelo Código de Defesa do Consumidor – a Lei do Ato Médico se arrasta há anos no Congresso. Isso mesmo, como se a saúde e seus cuidados fossem um produto de feira ou supermercado, não um bem valioso cujos serviços precisam ser devidamente valorizados em sua mais sublime peculiaridade. Tal situação é, no mínimo, constrangedora e vergonhosa! Mudemos logo, ou o prenúncio do caos será deflagrado.